quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Lucanos

Lucas, o amigo
o filho, o irmão
o autor do artigo
o músico, o amante
um cara num bar
um pedaço da roça
Lucas
a testa na nuvem
o pé descalço no chão

Lucas de boa
no centro do grupo
chamando atenção
Lucas no trem
arguto, absorto
cansado
um terço matuto
um terço gênio
um terço simples
(Inexplicável)

Lucas sentado
esperando o café
dando tempo do saco que é

escrever

Lucas e uma pilha de livros
Lucas e a carta que nunca escreveu
Lucas e um acender neuronal
que não pôde exprimir
que dissipou
que tinha a ver com aquela frase
daquele cara
no livro tal

Lucas é raro
por não ser específico
Quantos Lucas haveria de existir
para fazer desse um mundo melhor?
Sei lá
Mas a pergunta resta

Podem até me chamar
de mentiroso
exagerado
puxa-saco
Tudo bem
Mas experimente um dia
tomar café com Lucas

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Homem-peixe

Inspiro deliberadamente
e tomo controle do ar
estava às pressas
para que a estação chegasse logo em mim

Olho para baixo e vejo minhas mãos
descarregando caracteres
minha testa exsuda ar, água e sal
sinto fome

Pego o próximo trem
assento à janela
meu bilhete é um papel em branco
A cada túnel
fica mais difícil saber
se acordarei novamente
o mesmo

Paisagens rurais e eu a contar vacas
cuja existência me parece insuportável
De repente, uma ponte
posso ver o mar:
é grande para todos;
mas como estou preso em  meus ossos
parece que é especialmente grande para mim

Como ao fim de um recital, logo antes do aplauso
na pausa
no trem-flecha, imóvel
o momento suspende-se

Meu ateísmo emerge necessário,
mas talvez o oceano seja incrivel para mim
e o trem, para o peixe

Uma pergunta altera a configuração dinâmica dos meus acoplamentos neurais
dos acoplamentos neurais de quem sou
dessa artificial divisão entre eu e o peixe;
a pergunta que colapsa as ondas
que vêm de cantos remotos (donde não se ouve nada há bilhões de anos)
e ecoam
dividem-se infinitamente para passar ao redor de estranhos corpos celestes
e enredam-se com outras e com si mesmas
reencontram-se aqui
fazem um último cálculo

meu corpo pendula, levemente,
abro um sorriso
respondo que sim, que eu aceito,
que eu preciso
de um café concreto



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Trompa

Soa a trompa
para dar abertura
às bundas nuas
aos ursos
correndo
livres notas
presas à alguma topografia
que também percorre seu caminho
embora muito mais lenta
embora muito mais
sozinho seja eu
prisioneiro das escalas humanas

Tantas ferramentas
os desenhos
a dança das mãos
que falam
sob conversas
seus próprios discursos
(
volta a soar
a trompa, talvez
aquela da quinta sinfonia de Tchaikovsky)
E equações tão terrívelmente abstratas
que percamos a certeza metafísica
de estarmos no caminho certo
(para construir uma ponte não se faz necessária a Metafísica
além da de costume, é claro
(é preciso o sal de alguns homens
e de outros não)
)

Páginas completas de símbolos
cuja compreensão exige do homem
um pouco de café
para queimar os lábios;
lembrar que é filho da Terra
e que corre como os ursos
correm os ursos
sem metafísica

O Universo é estranho

O homem tem de inventar sua corrida
para algum lugar
para dar de comer a sua família
para se isolar
para atravessar a rua
em círculos
em linha reta
até o fim

Corre, homem
que quando tua sombra te alcançar
tu
ofegante
sorrindo, decerto
botará a mão no peito,
descasdado à nudez,
e dirá a si mesmo

terça-feira, 23 de junho de 2015

Nu em verso

U N I  V   E     R        S             O

Um verso

(1)                                                                                                            osrevnI


Só, em um verso
Ver (só) um

Eles, universalmente sós,
Os revi, nus
e eu
o inverso de mim mesmo
um universo dentro do outro
1 verso por vez
me puxo de dentro pra fora




U             N        I     V   E R S O



U        N     I   V  E   R     S        O






quinta-feira, 18 de junho de 2015

Bóia

Minha mente é bóia no mar
o vento não sei quem é, mas
assobia incessante
Abaixo em silêncio 
o tal Mistério Profundo
e eu a lançar ideias

Uma bola colorida
arqueia o lápis-lazúli
e amerissa na espuma
branca, fractal, quase láctea

Não alcanço a areia
acalmo as ondas
volto a soprar


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Análise da Pedra em Sísifo

Somos heróis do Nada
e faz mais de século
que seguimos Sísifos,
órfãos

Como pode um homem
    [terminar seu relatório
    [sabendo que será devorado
    [pelas escalas incompreensíveis
    [do Mundo?

Talvez por ser vivo
emaranhe-se
por suas camadas

Eu quebro a pedra
recursivamente
até onde vão os meus olhos

pedras

Não há seixo
Não me lembra um ovo
Não me promete segredos
Não acalma a palma da minha mão

A pedra é coerente
mas nunca amou ninguém






terça-feira, 16 de junho de 2015

I

O tempo
pelas dobras de um dedo
enrugado, curvo
aponta
para outro assunto

Sem tergiversar
no centro, reto
sobre planices
ausentes ainda na preensão nascitura
o espaço

Preso nas palavras
o contrário de tudo o que é
dito solto
em intervalos
de uma boca imóvel, incorpórea

E agora
eu
você
livres tão somente
formos
II

terça-feira, 26 de maio de 2015

Mármore, metal e plástico

Nossos restos serão
para outras criaturas
como nos são
as pinturas rupestres

Não sei ao certo
se vêm rastejando
sem poder entender
Flutuando, talvez
com olhos, bocas
narizes
para o cheiro metálico dos destroços

Ficarei feliz se sobrar
som de gargalhada
o silêncio que habita
a pausa
nas conversas

Há de lhes ocorrer
mesmo na ausência de face
certo franzimento
ao descobrirem
que o Vazio
também nos era predador

E nem por isso
deixamos de amar










segunda-feira, 18 de maio de 2015

Autocolorido

Exploda em cores
planeta Terra
sacuda a água das asas de um flamingo
invente mais uma flor

Em suas tempestades terríveis
assassine trezentos e vinte mil
animais inocentes
Mas faça também noite calma
e na manhã seguinte
em curvas telas de rocio
reflita o nascimento
de um cogumelo
por entre as frestas de uma pedra
que assistiu aos primeiros homens

Estou nessa luta contigo
meu planetinha
Mesmo que sejam inuteis
todos os nossos esforcos
coloriremos uma fração
desse imenso Nada
(sinto o frio nos ossos)

Deixe-me deitar
nessa grama quente
e olhar pro céu;
ver naquela nuvem
o amor da minha mulher

De qualquer forma
somos absurdos
E voce reproduz
em oásis de um deserto
o distanciamento que há
entre aglomerados de galáxias
(ou corações humanos)

Caminho inebriado
pelos vapores
das suas autossemelhanças
O arrepio retorna
em meu peito
e um dia há de exigir
que eu me dissolva
e lhe devolva
um corpo cansado

Em meu quarto
deito a cabeça
e me cubro
(as orelhas inclusive)
Quando ele chega
respiro
e insisto em ser
por mais que o pássaro
inveitalmente
se perca na revoada










terça-feira, 21 de abril de 2015

Amor difuso

Juliana,
sei que te amo
pois não me falta coragem
para falar
aos teus olhos
a mesma poesia que escrevo 

porque não sou outro
senão eu mesmo

Nu,
giro junto
com tudo o que gira
E não entendemos
(talvez jamais)

E nada disso importa
quando somos 
um só corpo
grito abafado
afirmante
da nossa não desistência
da nossa luta antientrópica

Interrompes minhas abstrações
com um sorriso
e me apontas as flores
         [no quintal daquela casinha:
são lindas

Toda essa beleza
me dói
E me acalma

Fantasio me cercar de flores
para que do lusco-fusco
eu me proteja 
em tua esperança
e à noite,
já cansado,
me recoste em teu coração vermelho




terça-feira, 7 de abril de 2015

Logus

A natureza, de sua indiferença,
criou o homem

Ao ver quão bela era,
se espantou.

sábado, 4 de abril de 2015

Reverência

Do alto da Avenida Niemeyer
da janela do meu ônibus
vi um pescador

um homem minúsculo
um oceano imenso

Fosse meu ônibus espacial,
seria o oceano minúsculo
e o homem
para todos os fins práticos,
nada

Mas em meu assento
sinto-me por um instante de pé
ao lado do pescador
E a brisa que entra pela janela quebrada
me faz pensar que estou dando risada
com aquele homem
esperando um peixe
que não importa

Estabeleço aqui
nesse ônibus,
que carrega meu povo sofrido,
uma presença universal
logo antes do meu ponto chegar

Segue o ônibus para o Centro
e eu parado no calçadão
As pessoas lá se movem
paradas,
diminuindo com a distância


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Despedaçado

Deus é vivo
para uns
despedaçado

Mesmo morto
reúne em suspiro
2:47 da manhã

Para o gato é gato;
para Esteves, o riso

De dentro,
incompreensível
voz graciosa:
um silencioso Nada