segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ferreira Gullar

Morre o poeta Ferreira Gullar
assim fico sabendo, pela notícia
porque a 10.000 km (a voo de pássaro)
nada mudou

Ninguém  por aqui leu seus poemas
para a moça da loja, tanto faz
o homem que entrega encomendas
talvez tenha olhado pra trás; algum bater de portas
mas quem poderia explicar
,e em qual nível,
porque mexeram os músculos do pescoço
porque mexeram comigo as poesias

Gullar era inventado
pois sabia-se ilusão
desmanchado segue viagem
estruturando outras coisas
embora jamais Ferreira
novamente será Gullar

Dividido existe em nossas cabeças
mas a soma
senão de outro tipo
é no mínimo menor
que Ferreira Gullar

No meio do incompreensível
foi-se Gullar para nunca mais
existir antes ou depois

Diz ele:

                   O mundo é incompreensível (...)
                   No Universo há bilhões de Via Lácteas (..)
                   Cara, não dá pra entende risso, cara... (...)
                   Sabe-se lá há que distância depois do Universo,
                       [que leis existem (...)
                   Que realides existem (...)
                   Quero saber quanto dura a moça que eu amo, sabe?
                   O Universo que se dane



Dói pois agora
como a frase acima,
o que resta é
escrito, gravado, fotografado
em papel e tinta
em capacitores, transistores
e neurônios
transformado, transformando
uma tarde em sentido
mas queríamos Gullar
carregando seus ossos
não os nossos
não na máquina, no retrato
nos bytes, nas ondas de luz

Copacabana em lusco-fusco
é Gullar
não é Gullar
nunca responde
eu sei
Gullar, eu e você
seguimos
no esforço diário
de ir
além das estrelas
para fitar a nossa própria nuca


Encontrar nós
íamos
mas nunca lhe mandei a carta











sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Rory Brown

Rory Brown is on the floor
headphones a missing line
the mucus showing down your nose
Down is Rory Brown
shaking, contorted with unsettling eyes

Rest a bit and rest your head
folk is here for your best
she's called the men - they're coming soon
One of us, the caring girl,
she knows you
And called you Rory, Rory Brown

I'll hold your shoulder
you can't get up
relax and lay your head
on your ragged student bag

Gathered here
'cause of you
we feel outwards

- the men have come

Bye now, Rory
I see you're back
in your eyes

You've made us humans
for 7 minutes
and more


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Lucanos

Lucas, o amigo
o filho, o irmão
o autor do artigo
o músico, o amante
um cara num bar
um pedaço da roça
Lucas
a testa na nuvem
o pé descalço no chão

Lucas de boa
no centro do grupo
chamando atenção
Lucas no trem
arguto, absorto
cansado
um terço matuto
um terço gênio
um terço simples
(Inexplicável)

Lucas sentado
esperando o café
dando tempo do saco que é

escrever

Lucas e uma pilha de livros
Lucas e a carta que nunca escreveu
Lucas e um acender neuronal
que não pôde exprimir
que dissipou
que tinha a ver com aquela frase
daquele cara
no livro tal

Lucas é raro
por não ser específico
Quantos Lucas haveria de existir
para fazer desse um mundo melhor?
Sei lá
Mas a pergunta resta

Podem até me chamar
de mentiroso
exagerado
puxa-saco
Tudo bem
Mas experimente um dia
tomar café com Lucas

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Homem-peixe

Inspiro deliberadamente
e tomo controle do ar
estava às pressas
para que a estação chegasse logo em mim

Olho para baixo e vejo minhas mãos
descarregando caracteres
minha testa exsuda ar, água e sal
sinto fome

Pego o próximo trem
assento à janela
meu bilhete é um papel em branco
A cada túnel
fica mais difícil saber
se acordarei novamente
o mesmo

Paisagens rurais e eu a contar vacas
cuja existência me parece insuportável
De repente, uma ponte
posso ver o mar:
é grande para todos;
mas como estou preso em  meus ossos
parece que é especialmente grande para mim

Como ao fim de um recital, logo antes do aplauso
na pausa
no trem-flecha, imóvel
o momento suspende-se

Meu ateísmo emerge necessário,
mas talvez o oceano seja incrivel para mim
e o trem, para o peixe

Uma pergunta altera a configuração dinâmica dos meus acoplamentos neurais
dos acoplamentos neurais de quem sou
dessa artificial divisão entre eu e o peixe;
a pergunta que colapsa as ondas
que vêm de cantos remotos (donde não se ouve nada há bilhões de anos)
e ecoam
dividem-se infinitamente para passar ao redor de estranhos corpos celestes
e enredam-se com outras e com si mesmas
reencontram-se aqui
fazem um último cálculo

meu corpo pendula, levemente,
abro um sorriso
respondo que sim, que eu aceito,
que eu preciso
de um café concreto



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Trompa

Soa a trompa
para dar abertura
às bundas nuas
aos ursos
correndo
livres notas
presas à alguma topografia
que também percorre seu caminho
embora muito mais lenta
embora muito mais
sozinho seja eu
prisioneiro das escalas humanas

Tantas ferramentas
os desenhos
a dança das mãos
que falam
sob conversas
seus próprios discursos
(
volta a soar
a trompa, talvez
aquela da quinta sinfonia de Tchaikovsky)
E equações tão terrívelmente abstratas
que percamos a certeza metafísica
de estarmos no caminho certo
(para construir uma ponte não se faz necessária a Metafísica
além da de costume, é claro
(é preciso o sal de alguns homens
e de outros não)
)

Páginas completas de símbolos
cuja compreensão exige do homem
um pouco de café
para queimar os lábios;
lembrar que é filho da Terra
e que corre como os ursos
correm os ursos
sem metafísica

O Universo é estranho

O homem tem de inventar sua corrida
para algum lugar
para dar de comer a sua família
para se isolar
para atravessar a rua
em círculos
em linha reta
até o fim

Corre, homem
que quando tua sombra te alcançar
tu
ofegante
sorrindo, decerto
botará a mão no peito,
descasdado à nudez,
e dirá a si mesmo

terça-feira, 23 de junho de 2015

Nu em verso

U N I  V   E     R        S             O

Um verso

(1)                                                                                                            osrevnI


Só, em um verso
Ver (só) um

Eles, universalmente sós,
Os revi, nus
e eu
o inverso de mim mesmo
um universo dentro do outro
1 verso por vez
me puxo de dentro pra fora




U             N        I     V   E R S O



U        N     I   V  E   R     S        O






quinta-feira, 18 de junho de 2015

Bóia

Minha mente é bóia no mar
o vento não sei quem é, mas
assobia incessante
Abaixo em silêncio 
o tal Mistério Profundo
e eu a lançar ideias

Uma bola colorida
arqueia o lápis-lazúli
e amerissa na espuma
branca, fractal, quase láctea

Não alcanço a areia
acalmo as ondas
volto a soprar