Inspiro deliberadamente
e tomo controle do ar
estava às pressas
para que a estação chegasse logo em mim
Olho para baixo e vejo minhas mãos
descarregando caracteres
minha testa exsuda ar, água e sal
sinto fome
Pego o próximo trem
assento à janela
meu bilhete é um papel em branco
A cada túnel
fica mais difícil saber
se acordarei novamente
o mesmo
Paisagens rurais e eu a contar vacas
cuja existência me parece insuportável
De repente, uma ponte
posso ver o mar:
é grande para todos;
mas como estou preso em meus ossos
parece que é especialmente grande para mim
Como ao fim de um recital, logo antes do aplauso
na pausa
no trem-flecha, imóvel
o momento suspende-se
Meu ateísmo emerge necessário,
mas talvez o oceano seja incrivel para mim
e o trem, para o peixe
Uma pergunta altera a configuração dinâmica dos meus acoplamentos neurais
dos acoplamentos neurais de quem sou
dessa artificial divisão entre eu e o peixe;
a pergunta que colapsa as ondas
que vêm de cantos remotos (donde não se ouve nada há bilhões de anos)
e ecoam
dividem-se infinitamente para passar ao redor de estranhos corpos celestes
e enredam-se com outras e com si mesmas
reencontram-se aqui
fazem um último cálculo
meu corpo pendula, levemente,
abro um sorriso
respondo que sim, que eu aceito,
que eu preciso
de um café concreto
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